1 - Quem me dera
No verão passado fui tirar férias em um sítio da família. Mas nessa época eu tive a idéia romântica de fazer um disco completo, com todas as faixas compostas em uma tacada só. Então quando surgiu a oportunidade de tirar férias nesse lugar, eu pensei que seria a grande chance e fui de mala e cuia, me deixar ficar isolado. Assim eu ia fazer as minhas músicas.
O caso é que tentei ficar socado naquele lugar, mas é obvio que não deu muito certo.
Sabe como é. A gente fica lá naquele paraíso. Ai sai pra olhar o nascer do sol. Da uma pescada no açude, ai pinta uns passarinhos no poste, e... já era. Quando ia ver já tava no fim do dia, e as músicas lá, como sempre, sempre pela metade.
Mas cheguei a fazer alguma coisa. Eu fiz uma milonga.
A tal milonga tinha um violãzinho bonito e tal, mas tinha um problema sério: a letra era uma porcaria. Dava até pena de ter usado aquilo que fiz pra dizer toda aquela bobagem. Então, pra não deixar na gaveta, segui tocando sem abrir a boca, que era o que eu melhor poderia fazer.
Acontece que, alguns dias depois, abrindo um livro do Fernando Pessoa eu vejo um daqueles poemas lindos do Guardador de Rebanhos, onde o Fernando pessoa assina como Alberto Caeiro. E o poema falava sobre a vontade de ser simples. De viver como se fossemos um carro de bois. E eu fiquei perplexamente lisonjeado, por que aquilo foi psicografado pra mim, com certeza!
Aquele poema era tão meu, e tudo se encaixou tanto, era tão coerente... Deixa eu explicar melhor:
Eu fiz uma milonga e isso caracterizava esse ambiente campeiro. Meu dedilha-do, além de cíclico, como o girar da roda do carro de bois, também quase parava em vários momentos. A roda!! Sacou? Era tudo tão coerente!!!
É claro. Eu tive que dar umas adaptadas, por que o Fernandinho não sacava mui-to de canção, mas eu também não poderia querer tudo de mão beijada.
Bom, tudo era muito maluco.
Eu sai da serra do Rio Grande do Sul com uma música irremediavelmente inaca-bada em baixo do braço. Fui para João Pessoa na Paraíba na casa de familiares onde ao abrir um livro do Fernando Pessoa eu encontro a letra de uma Milonga. Meu Deus!!!
Bom, vou deixar o link para conferirem. A montagem é com imagens da porongo organizadas pelo André.
http://www.youtube.com/watch?v=Z6SPR29BL1g
Abraço
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Hoje pela manhã, pensei em dar continuidade à algo que havia escrito ontem antes de dormir... Fico meio receoso em usar palavras como amor... Não sei bem porquê... Na real, sei... É uma palavra banalizada, de certa forma, o que faz com que o uso dela fique sempre com a primeira leitura de ser banal... Enfim... Da série "Canções em uma manhã":
Coruja
Passo as noites perguntando
Cruzo os dias numa caixa
Sinto o frio da madrugada
Me deixar soturno
Como pães feitos de barro
Bebo sangue, suor e lágrimas
Cuido o louco alienado
Me mirar inteiro
Sei que ela me dá
Covardia, dias de horror
Mas tomo esse trago
Corpulento, lento de amor
Procurando coisa braba
Com meu laço sem maneio
Adormeço longe de casa
Com uma fala à-toa
Coruja
Passo as noites perguntando
Cruzo os dias numa caixa
Sinto o frio da madrugada
Me deixar soturno
Como pães feitos de barro
Bebo sangue, suor e lágrimas
Cuido o louco alienado
Me mirar inteiro
Sei que ela me dá
Covardia, dias de horror
Mas tomo esse trago
Corpulento, lento de amor
Procurando coisa braba
Com meu laço sem maneio
Adormeço longe de casa
Com uma fala à-toa
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Das doenças mundanas
Velhos, tenho pensado muito sobre um assunto que anda me dando certa angústia ultimamente. Nem sei como vou explicar isso aqui, porque é deep, complexo, entendem? Esses dias pensei numa frase, ao estar numa aula teórica falando do texto e sua cópias (lê-se texto como obra, seja artística, literária, roberto carlos, whatever): "Acho que toda obra de arte foi feita pra ser apreciada, não estudada."
Não estou dizendo que a obra não deve ter os seus vários signos, subtextos, referências e complexidades. Não digo para não nos debruçarmos sobre algo que realmente toca as inquietações da alma. Afinal, acredito eu também que é assim que outras boas obras surgem.
Só quero saber porque, toda vez que vejo um "doutor" falando sobre isso, é a coisa mais chata, arrogante, chata, narcisista, chata e chata que eu já vivi nesse um quarto de século?
Daí, entrei em parafuso: Algo que poderia ser extasiante, belo e transformador, é transformado em tédio, sono, e piadas como "entendi, tá na hora do intervalo?" A universidade está doente, nós estamos doentes, o mundo todo é um leproso em quarentena na idade média. Cada vez mais chego à conclusão de que a arte nunca mais vai sair da academia. E é até melhor que venha de fora mesmo.
Por causa dessa experiência, veio a questão: como colocar essas inquietações no meu trabalho?
Tudo isso numa aula de Literatura Comparada. Acho que no final, tem o seu valor dormir numa universidade.
Velhos, tenho pensado muito sobre um assunto que anda me dando certa angústia ultimamente. Nem sei como vou explicar isso aqui, porque é deep, complexo, entendem? Esses dias pensei numa frase, ao estar numa aula teórica falando do texto e sua cópias (lê-se texto como obra, seja artística, literária, roberto carlos, whatever): "Acho que toda obra de arte foi feita pra ser apreciada, não estudada."
Não estou dizendo que a obra não deve ter os seus vários signos, subtextos, referências e complexidades. Não digo para não nos debruçarmos sobre algo que realmente toca as inquietações da alma. Afinal, acredito eu também que é assim que outras boas obras surgem.
Só quero saber porque, toda vez que vejo um "doutor" falando sobre isso, é a coisa mais chata, arrogante, chata, narcisista, chata e chata que eu já vivi nesse um quarto de século?
Daí, entrei em parafuso: Algo que poderia ser extasiante, belo e transformador, é transformado em tédio, sono, e piadas como "entendi, tá na hora do intervalo?" A universidade está doente, nós estamos doentes, o mundo todo é um leproso em quarentena na idade média. Cada vez mais chego à conclusão de que a arte nunca mais vai sair da academia. E é até melhor que venha de fora mesmo.
Por causa dessa experiência, veio a questão: como colocar essas inquietações no meu trabalho?
Tudo isso numa aula de Literatura Comparada. Acho que no final, tem o seu valor dormir numa universidade.
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